27 março 2009

 


SOB O SOL DE QUEM NÃO PENSA POR SI

Eu acho terrivelmente ridículo o pedantismo de quem escreve e não apresenta condições de emitir uma própria opinião, ainda que nas entre linhas. Digo isso porque há por aí um monte de “bananas” que é capaz de escrever/citar talvez todas as linhas, ou talvez as mais belas frases de qualquer filósofo ou escritor, mas sequer é capaz de tecer um pensamento propriamente seu. Parece que, fora a linha de raciocínio do outro, a pessoa aparenta ser mais um poço vazio que espera aberto o inverno chegar. São pessoas que não sabem que a fraqueza de possuir uma biblioteca na cabeça inibe a fruição do pensamento autônomo. Não que aqui eu esteja pregando o “não à leitura”. Não é isso. Mas é que a leitura só é algo que instiga nosso pensamento, tornando-o saudável, quando constrói nosso senso crítico e quando ela nos torna capazes de enxergar com nossos próprios olhos, sem ter que necessariamente estarmos o tempo todo com nossa opinião à mercê do binóculo de outrem. Tá bom, vá lá que a gente ache algum pensamento por aí que ajude a elucidar o nosso, e nos utilizemos dele para fazer o sol do que queremos dizer por fim surgir. Agora fazer com que cada raio solar que surja de nossa mente se torne a luz a qual não temos e não sabemos como construir um eclipse, é uma luz de vela ao vento. Penso que as leituras, os vários livros, os diversos pensadores e escritores, entre outros, devem ser consultados sempre e continuamente. Conquanto não sejam todos elencados numa só linha de um texto, aos montes, para atestar a infertilidade de quem não consegue pensar por si. O certo é que eles nos dão elementos para refletir e formarmos nossa opinião própria, e não para fincarmos uma barreira intransponível em nosso pensar e dogmatizar uma verdade. Tanto é que a leitura só é algo que realmente surte efeito em nossa vida quando descobrimos que ela é um dos frutos da desgraça do homem, porque o faz abrir mais os olhos para que é real. Mesmo quando estamos com os olhos da alma cegos de não ver nada no que não dizem os outros.

22 março 2009

 


A CONTRA-FILOSOFIA DAS DESCOBERTAS, BARATAS

Ultimamente tenho descoberto coisas sobre mim que tem me surpreendido. Primeiro, semana passada, quando me vi em gozo ao matar algumas traças que velavam a instante onde ficam os meus livros. E nesta semana, quando ao colocar inseticida, vi surgir e correr em alvoroço algumas baratas do “quarto de bagunça”, ou “dispensa”, da minha casa, e saí imediatamente fazendo um exercício de extermínio, ao me pegar pisando em uma por uma, durante a fuga delas. Não sei, mas senti um prazer profundo naquilo. Em uma seqüência só matei quatro. Depois mais três. Porém eu não sabia que agrado era aquele que me fazia bem ao ver tanta barata morta ao chão. Sem contar a sinfonia que brotava em meus ouvidos, ao captar o estralado do corpo das baratas prensadas. Engraçado era vê-las mexendo suas minúsculas perninhas como se buscassem pedalar no vento. Quanto ao formato que elas ficavam, parecia uma massa de modelar abandonada por uma criança. Some-se a isso àquele líquido viscoso que delas saíam, e deixavam no chão aquela coisa pegajosa. Ainda não entendo que prazer eu sentia nisso. Me conformo me convencendo de que tem coisas que a gente nunca consegue entender. Todavia isso não vem a ser o mais importante. Bom é mesmo fazer descobertas sobre a gente. Melhor ainda é quando elas nos surpreendem. E é o que tem acontecido comigo. Ando me descobrindo, como se fosse uns olhos que se desvenda em hora imprópria, quando o escuro já tomou de conta da retina.

20 março 2009

 


ESCREVER É ESTAR NUM ABISMO

Chega um tempo em que escrever é mais que uma coisa orgânica, mais que uma mera necessidade. Cada vez mais chego à conclusão de que escrever é espantar nossos medos. E mais, como muitos pensam, escrever não é uma atividade que se faz unica e exclusivamente quando se tem tempo sobrando ou se está vivendo no ócio. Absolutamente. Se escreve para não deixar o tempo sobrar, e também para não deixar pousar sobre nós a amarga sensação de que tudo é passageiro, efêmero. Esta é uma sensação dolorosa, é sabido. Porém, esquecê-la por instantes é uma maneira discreta de aceitar que isso não me desespera. Pois, quanto a mim, tenho um medo desgraçado de morrer, mesmo sabendo que é um medo inevitável e frouxo. Mas o meu medo não é só por não saber para onde vou. Mas, sobretudo, por não saber como vou me comportar quando chegar, ou lá em cima, ou lá embaixo. Talvez isso acelere ainda mais a minha vontade de escrever. Pois quando alguém conseguir ver que nada mais fui do que um escritor que nunca soube dizer “não” ao medo, quiçá seja isto um sinal de mercadoria mal comprada. Pois bem, na verdade eu acho que a gente escreve pra buscar explicações que respondam por que o fazemos. Escrever no fundo é algo tão angustiante que chego a me perguntar: aonde as palavras nos levarão? Eu tenho pensado muito no sentimento de culpa que nos passa quando inventamos personagens e as fazemos sofrer. Melhor não seria que nunca as inventássemos, ou mesmo as deixássemos quietas, curtindo a paz de nunca serem postas à agonia? Tenho um tremendo remorso quando alguma personagem minha sofre e eu não posso fazer nada se não empurrá-la abismo a baixo. Tenho medo de encontrá-la em meus sonhos, em meus medos, encontrá-la por aí quem sabe – lá em cima, ou lá embaixo.

18 março 2009

 


SOBRE NOSSOS COMENTÁRIOS DE CADA DIA

Às vezes um blog por si não é interessante. E isso é muito relativo. Verdade é que ele precisa de uns alimentozinhos extras: do tipo “anti-monotonia”. Se se perceber bem, o mais divino de um blog, a meu ver, não é a postagem em si, mas sim os comentários, os olhos alheios que se voltam para o que escrevemos. O texto literário talvez seja o mais abençoado pelos comentários mais significativos, isso pela própria natureza do texto. As pessoas geralmente passam por longe do que pretendíamos sugerir, às vezes acertam em cheio. Entretanto, confesso que os comentários mais dignos de reflexão são os da maioria das pessoas que não se intitulam “escritores”. Ah, porque certos “escritores” levam cada palavra, cada linha, com uma seriedade intangível, como se fosse um decreto de vida ou morte. Por isso, penso que é cada vez mais excitante sentir a naturalidade das pessoas que comentam teu texto sem ter que citar um crítico literário ou mesmo se remeterem a exposição e a secura de quem não se funda em nada, e simplesmente te diz “não concordo”. Ora, por exemplo, particularmente não escrevo aqui para perguntar se concordam ou não, mas escrevo para que, se concordarem ou não, se fundem em algo, de fato, interessante e curioso. Não que eu esteja escolhendo que o meu leitor diga o que eu queira ouvir. Mas nunca deixo nada aqui do tipo “você concorda ou não concorda”. Um blog é um veículo mágico, só os poucos olhos conhecem a magia que penetra nas palavras, mesmo que se conviva com elas há muito tempo. É evidente. Existem blogueiros que tratam seu blog como se tratassem de sua mãe num leito de morte. Existem outros que publicam em seus blogs seus textos fadigados da escuridão de uma gaveta, e que lá deveriam permanecer. Existem ainda outros que tratam seus blogs como se fossem verdadeiros vendedores de frutas verdes que não conseguem ser comercializadas – por não ter quem queira comprar. Enfim, um blog é uma aventura, uma oração, um Pai Nosso rezado às pressas. Mais vale a gente escrever. E isso basta.

07 março 2009

 


POR QUE O HOMEM CASA?


Todo homem só casa para ter uma mulher que possa todo dia chamá-la de “cachorra”, ou qualquer coisa dessa natureza. Pois a base de um relacionamento, pelo menos para o homem, é a agressão. Ser agredido gera vontade de querer a presença do outro. O rosto decepcionado da mulher faz o homem se apaixonar infinitamente por ela. Toda mulher gosta quando o homem a deixa num canto de parede frio, e depois vai buscá-la nos braços sob beijos de “me desculpa”. Mas chamar de “cachorra” é o que os homens gostam mais. Porque toda referência canina atiça nos homens seu lado mais animal: o sexo sem escrúpulos, que é a parte mais sentimental do homem diante da mulher. Então o casamento para o homem é a maneira mais fácil de pôr em prática a realização de seu gosto pela a ofensa de uma mulher. Mas as mulheres não gostam de ser ofendidas, só quando estão sem culpa. A mulher gosta mesmo é de latir, enquanto o homem faz de conta que é um gato indefeso diante daquele animal que ladra. Por isso é que o homem casa: para ter uma mulher que possa todo dia chamá-la de “cachorra”.


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