19 maio 2009

 

Podemos temer a uma caneta?


Se uma caneta que escreve uma carta explicando o suicídio de seu dono pudesse falar, o que ela seria capaz de confessar, após saber dessa morte consumada? Fiquei pensando: uma caneta é um dos bichos mais desgraçados. Já que é forçada a concretizar o pensamento abstrato de quem com ela se agrega. Da mesma forma que escreve “vida” pode escrever “morte”. Da mesma forma que pode escrever “te amo” escreve “te odeio”. Uma caneta é o cúmplice mais imperceptível de quem escreve uma carta de amor. De quem rabisca uns versos na última folha do caderno, ou de quem copia a letra de uma música romântica entre suspiros.

Entretanto, uma caneta serve para tantas outras coisas. Na adolescência, por exemplo, eu usei uma para enfiar na barriga de um colega da 6ª série, quando ele havia me chamado de “filho da puta”. Cravei no lado esquerdo de seu umbigo, mas só entrou a ponta, marcando de azul aquele breve furo que gotejou sangue. Para tantas outras coisas as canetas servem de improviso. Há mulheres que as usam nos cabelos, para prendê-los. Há homens que enfeitam o bolso da camisa com uma caneta, para manter pose de intelectual. Há outras pessoas que utilizam caneta para extrair a sujeira das unhas, retirando com a ponta dela a toda massa escura ou o grude. Ora, já vi também outras pessoas tentando tirar a cera do ouvido com o fundo de uma caneta bic.

Não sei, não sei. Mas toda caneta na verdade, hoje em dia, morre é de ciúmes do teclado e da tela dos computadores. Os homens de nosso tempo são verdadeiros adúlteros. Só usam a caneta para a emergência. Podem até casar com ela, mas todo seu amor é preferencialmente partilhado com a tela plana de um computador. Caneta é sinal de emergência. Com isso toda caneta nos dias atuais o que buscam é o suicídio. Não mais suportam a dor de serem trocadas. Não aceitam ser “a outra”. Se sentem quase inúteis. Quando muito, só têm a função de assinar sobre a breve linha de um documento ou um atestado. O que diremos, nós, quando as canetas em agonia confessarem o que temeu dizer os suicidas com aquela palavra riscada, que foi corajosa e ali permaneceu, ao contrário do faz o “delete” que ali não deixa registro algum do que foi previa e temerosamente escrito?

Comments:
Wagner,

Pela primeira vez pensei na caneta dessa forma... esse texto ficou muito bom, adorei.

A caneta que rola na minha mão é aquela que só fala de coração.

=]

Rebeca

-
 
Uso canetas todos os dias e nunca tinha pensado nisso!
 
Pois é amigo, a caneta foi inteiramente destrinchada no seu texto, nunca pensei uma caneta podesse responder tantas perguntas...
 
kkkk
cara muito bom mesmo, mas vc falou de uma coisa muito boa e antiga, escrever a letra da música num caderno...
cara!!! isso é das antigas, fez relembrar o passado.
Canetas estão em perigo de extinção mano.
 
Olha eu por aqui. A net resolveu me dar uma colher de chá essa semana e resolvi visitar meus lugares virtuais favoritos. Pelo visto o seu está bem legal. Morri de rir com esse ângulo... E por falar em caneta, gosto demais desses pensamentos de Peter Greenaway:
"O corpo é um alfabeto? Pele pode servir de papel? Há imortalidade no texto? A espinha do livro é a mesma vértebra do homem? Qual é o preço em palavra do amor carnal? O texto pode sentir ciúme? Podem os livros trepar com outros livros e produzir mais livros? Sangue é tinta? A pena é um pênis cujo propósito é fertilizar a página? Aquela que era o papel pode tornar-se a pena? E se foi o corpo que fez todos os signos e símbolos do mundo, passando do cérebro pensante para o braço que move e daí para o gesto da mão e daí para a pena rígida sobre o papel silencioso durante milhares de anos, e agora? – agora que todos nós escrevemos com teclados? Teremos rompido um elo essencial? Haverá agora uma necessária evolução futura para as letras e as palavras? E, se as palavras foram feitas pelo corpo, onde haveria um lugar melhor para depositar essas palavras do que de volta no corpo?"
Abração!
 
Sei não, cara. Continuo usando caneta e sou muito atento. Parece que ninguém notou a ilustração: caneta é um risco e deve ser monitorada cuidadosamente. É preciso estar atento.

Talvez porisso os teclados possam ser considerados sexualmente seguros e serem mais usados hoje em dia, como opção.
 
Sei não, cara. Continuo usando caneta e sou muito atento. Parece que ninguém notou a ilustração: caneta é um risco e deve ser monitorada cuidadosamente. É preciso estar atento.

Talvez porisso os teclados possam ser considerados sexualmente seguros e serem mais usados hoje em dia, como opção.
 
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