27 junho 2007

 

DO QUE ÀS VEZES NÃO PARECE SER EXTERNO


Estava apenas jogada sobre a cama. Braços encolhidos. Pernas entreabertas. De calcinha e sutiã, somente. Resvalava sobre o flanco da calcinha – que se justapunha à virilha – uma leve e sutil leva de pelos pretos e ásperos. A pele lisa mais parecia uma espessa casca de ovo, uma superfície corredia e indelével. Seus cabelos resistiam ao embaraço que desordenava a porção de fios que conflitavam entre si. Cabelos soltos, vadios, presos unicamente à alvura do travesseiro. Seu corpo não apresentava nada além de uma feição de enfado nascedouro da atividade contrátil que antes havia se entregado – embora fosse pouca a umidade que atestava a viscosidade do suor preliminar. Não importava se seu rosto estava enterrado no lençol. Mais valia o corpo mesmo que se submetia à volúpia que a cama inerte lhe causava, e isso de tal forma que, à medida que sua matéria se comprazia, ao mesmo tempo parecia fazer crescer os seus membros, os seus quadris, suas nádegas. Seus ombros retraídos curvavam-se de modo que envergava todo o resto do corpo. Seus seios eram fartos, bons de tamanho, salientes; contudo, se comprimiam sob a pressão do sutiã atacante. Como se não bastasse as suas coxas que apresentavam boa proporção, seus joelhos flexionados mais faziam com que suas pernas fizessem como que se parecesse um desenho indistinto, que por ora se confundia com rabiscos em uma folha em branco, ora uma escultura inacabada, esquecida durante algum tempo. Era um corpo enleado. Firme. Aterrado num leito. Despojado à horizontalidade do colchão. Nu quase de todo. Livre. Desprendido. Intensamente silencioso. Ajustado apenas ao torpor que selavam seus olhos, a boca, a face; como se a sua volta inexistisse vida, a vida pouca que lhe parecia ser externa.

Comments:
Meu Deus, que narrativa intensa...

Perfeito!

Beijos
 
hummm... gostei :)
É hoje a defesa.. tô teeensa!
beijos
 
Realmente, faço coro à Jana: intenso!
Beijos!
 
A vida parecendo tão alheia.
E deu tristeza, de tão vivas linhas.
=**
 
Olá Wagner.
Vim agradecer a visita e conhecer seu canto.
Confesso que fiquei surpresa com o que encontrei.
Seus textos são muito bem articulados além de repletos de sensibilidade.
Resumindo: um escritor de mão cheia!
Parabéns!
Bjos e lindo dia!
 
toda a beleza, no fim das contas, mora no simples :o)

beijocas

MM
 
Olá rapaz.... fui indicado num troço aí e poderia indicar 05 blogs que eu gosto muito... indiquei vc... dá uma olhada lá no meu!!!
abraços!!!
 
e vc como sempre escrevendo divinamente
é por essas e outras q t indiquei a um concurso
passa lá no meu blog pra ver mais detalhes



“Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!”

(Florbela Espanca)


Bjos da -=Þëqµëñä Þö놡zä=- !!!
 
Gostei bastante do seu blog e fico grato pela sua visita! O texto é muito bonito, cru, cheio de sentidos... adorei!
 
Olá, Wagner, obrigado pela sua visita!
A insustentável leveza do ser é sublime realmente... é o livro que mais me fascinou até hoje!

Não li muito ainda do que escreves, mas gostei da intensidade, das imagens que suas palavras criam...
até mais,
abraços
 
Wagner, você é bem vindo no Maria Muadié.
Um abraço,
Martha
 
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