06 julho 2009

 

A jaca como afirmação dos homens

Foto: Os homens e a jaca (Wagner Marques)

Como sempre, quando estou indo ou voltando do trabalho, gosto de fisgar o que vejo de interessante entre os da minha cidade. Desta vez, antes de chegar ao trabalho, quando parei num chaveiro, no centro da cidade, enquanto aguardava um senhor fazer as cópias de algumas chaves de minha casa, me surgem alguns homens envoltos de uma jaca - sobreposta a um balcão onde se consertava relógios - partilhando-a com voracidade em plenas 8 horas da manhã. Por um momento aquilo me recordou a Santa Ceia. Mas o que mais me chamou a atenção foi o sentimento de união que enchia os olhos daqueles senhores. Entre risos e piadas, se fartavam diante da jaca. Bocas peguentas, bagos caídos, moscas arriscando se chegar. Coisas que fizeram aguçar ainda mais a minha mania de fotografar (sem autorização dos fotografados) com a mais pura discrição aqueles homens. Como se estivesse tentando fazer uma ligação no celular, fotografei, através do celular mesmo, os senhores sem que estes o percebessem. Assim lanço aqui esta fotografia como partilha do mais profundo de sentimento humano que me invadiu nesta manhã. Sentimento arredio, de quem rouba: sentimento de quem rouba as imagens de homens que apostam que mais vale se afirmar através de uma jaca, do que se distanciar por tesouros intangíveis.

Comments:
A jaca "cristanizada de W. Marques.
Ao inves do lava pés eles irão lavar as mãos uns dos outros. rsrsr.
 
Jaca mole ou dura?
 
Mania boa essa de fotografar transeuntes. Tambem possuo, acho muito bom.
 
OS CAVALOS DO CÃO
(parte 1)

A última fogueira que apagava na Gervásio Píres era a de Seu Jerônimo. A primeira era a de nossa casa. O Avô juntava os gravetos que caiam do pé-de-jambo e da goiabeira. Cabos de vassouras quebrados e caixas de tomates apodrecidas. Nesta última o velho pegava um martelo e golpeava nas extremidades, soltando as tábuas. Depois entortava os pregos enferrujados, a fim de evitar o tétano. Aquilo dava uma fogueira guenza. Envergonhava-me do pouco fogo da casa para a festa de São João.

Em meia hora o fogo havia consumido nossas tabuas e não restava uma brasa para assas as espigas de milho. A nossa fogueira era uma carne sem osso e na cabeça do Avô devia servir apenas de agrado ao santo. Não o havíamos esquecido. Não passaria em branco a sua data. Valia pela intenção e respeito ao santo.

A fogueira de Seu Jerônimo é que valia a pena. Os parentes traziam do sítio umas toras de mogno. A F4000 despejava as toras no chão e o baque estremecia a terra e os muros. Seu Jerônimo se gabava da madeira de lei e apostava com quem quisesse que um prego não entraria naquela tora. Meu Avô e os outros da rua corriam da aposta.

Seu Jerônimo fazia o teste. Colocava o prego entre os dedos, pegava o martelo e sentava os golpes. O prego entrava, uma unhinha de nada, e começava a entortar. Formava um ‘C’. O velho martelava mais e o ‘C’ virava um ‘S’. “Não disse. Prego aqui não entra nem com a porra”.

O velho Jerônimo rolava as toras de mogno até emparelhar ao portão. Pregava no chão dois vergões de ferro. Um em cada lada, afim de a tora não sair rolando a Gervásio Píres. Eu imaginava aquele acidente: o vergão se soltando e a tora descendo desgovernada. Um imenso tição de fogo, vermelho, passando por cima das fogueiras de meia tigela, atropelando os cachorros e os bêbados. Seria o nosso cometa halley e só pararia quando batesse no muro da (fábrica) Jatobá, explodindo-o e obrigando a vizinhança a apagar o fogaréu, estourando as garrafas de vinho doce nas chamas. Contava isso aos amigos e eles aplaudiam, maquinando diabruras.

***

O único problema que o velho Jerônimo encontrava era fazer a tora de mogno pegar fogo. Ensopava querosene numa estopa e aninhava embaixo da madeira. Riscava o fósforo e a estopa inchava de fogo. Minutos depois o pano esgarçado havia sido consumido e o clarão apagava-se. “A prova de fogo que ela não é.” Pegava as contas de água e luz, calendários com pães estampados, tudo que era de papeis, lascas de pau, e substituía a querosene por álcool. Aninhava tudo embaixo da madeira e jogava o fósforo de longe que era pra chama do álcool não lhe sapecar o braço.

(...)
 
Meu Lindinho!
O q têm de + simples é verdadeiramente o q têm + valor.
Bjinho no coração, primo.
 
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