10 junho 2009

 

A outra saliva

Pintura O Beijador (Picasso)


Meu primeiro beijo na boca foi quase forçado – como tendem a ser os primeiros beijos. Eu não estava pronto ainda para descobrir o prazer através da boca. Eu sabia que aquilo deveria ser bom. Meus amigos todos já haviam falado. Já haviam beijado. No entanto, nada que me causasse pressa. Só que determinada vez foi inadiável. “Amanhã, em frente à casa da esquina, às três horas”, foi o que J. me disse, dando as costas para mim. Indo embora depois de dizer: “escove os dentes”. Meus amigos ainda não haviam me dito que para se beijar teria que escovar os dentes. Também, eu não tinha mau hálito. Fiquei curioso sem saber o porquê daquilo. Disseram-me depois que J. queria me beijar, que estava enamorada comigo.

Aquilo foi o suficiente para me fazer gelar os pés e me causar um leve tremor nas mãos. Minha respiração se tornou tão ofegante, que me fez ficar com uma sensação de porco no farelo. Não sabia o que fazer, ou melhor, o que dizer. Não sabia se eu saia correndo para casa sem dar satisfação a ninguém, e fingia que não havia escutado nada; ou dizia que ela era feia e não queria nada com ela, como faz qualquer criança como álibi de seus sentimentos mal resolvidos. Resolvi não fazer nada disso. Em meio à barulhada de meus amigos, estufei os peitos, ergui a cabeça e me retirei como se fosse um homem que tivesse uma grande missão a cumprir no outro dia.

Em casa, após um banho e a janta, algo começou a mexer com meu estomago. Não foi fácil chegar o sono. A noite se aprofundava. Eu, aos cochilos interrompidos: visualizando J. chegando até mim e tocando seus lábios nos meus. Mesmo desta forma não dava para relatar nada sobre a sensação de um beijo. Assim, a manhã rasgou a madrugada. O sol desceu cintilante. Após o café da manhã, segui para escola. A manhã naquele dia custou a passar. Junte-se isso à minha pouca concentração nas aulas. Chegando em casa, tão logo ao almoçar, peguei um manual de escovação que havia em um kit escolar meu. Escovei meus dentes impecavelmente. A hora avançou.

Quando apontei à casa da esquina, já havia muita gente ao longe. Alguns, trepados nas árvores; outros, por sobre os muros, outros ainda se escondendo atrás dos carros. J. já estava lá. Mas ao chegar perto dela o que dizer? Não sabia. Ia para ali com a mais pura inocência de quem iria ser beijado por uma menina 3 anos mais velha. Não houve tempo para construção de nenhum discurso entre eu e J. Ao chegar perto dela, transcorrido 4 segundos, ela atirara seus lábios nos meus. Que coisa estranha era uma língua entrando em minha boca! Os meus amigos que acompanhavam tudo só faziam encher de estardalhaço a rua, em meio a gritos e assovios. Minha boca era então beijada pela primeira vez. Meio que apulso. Forcei-me. Não estava pronto para permitir a saliva de outra pessoa na minha boca.

Comments:
obrigada pela visita..
sempre passo por aqui.
mas...nem sempre é facil fazer de nossos sonhos algodão.
valeu.
 
Mto legal a sua historia, não foi pior q a minha... mas sempre o primeiro bjo é estranho, ate o primeiro bjo do namorado...

obrigada pela visita ao Palavras Cruzadas
volte sempre
abraço
bom fds
 
o meu foi ensaiado com o menino que não erao que queria beijar...

meninas são sempre mais decididas rs

beijo
 
hahaha ri sozinha com algumas partes!
meu primeiro beijo também foi bem parecido.. acho que com todo mundo é assim mesmo.
Beijo
 
já tinha visto esse quadro em noites de estrelas dançantes e dromedários saltitantes...me apresento,sendo a primeira estrela. beijo
 
Os primeiros beijos sempre são mesmo estranhos, no mínimo. E também inesquecíveis. E acho que nunca estamos preparados pra essa invasão que é o primeiro beijo, e não há formas de preparar-se senão praticando o primeiro beijo. rs

Abraço e obrigado pela visita!
 
Meu primeiro beijo tambem foi incrivelmente forçado, artificial e traumatico.
Ainda conto, um dia.
Mando beijos pela visita - nao forçados, é claro.
 
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