04 abril 2009

 

Sobre o que as bolas de gude nos ensinam



Tem cenas que só da gente vê, dá vontade de escrever um livro sobre elas. Particularmente, aconteceu comigo esta semana, quando presenciei uma dessas cenas. Quando passando pelo centro da cidade, e vi um mendigo pedindo ajuda e equilibrando uma bola de gude no nariz. Embora pequena, a bola de gude, popularmente chamada de “ximbre”, se equilibrava com uma tração incrível na ponta do nariz do indivíduo. Foi quando descobri que aquilo era mais do que talento ou habilidade. Era um desafio tão somente às leis da física. E mais: era uma afronta à crença de qualquer um. Só que o mal disso era que as pessoas que passavam por ali só o viam meramente como um pedinte, quando na verdade ele se tratava de um artista. Porque “aquilo” também é arte. Nunca havia visto uma coisa daquela antes. E se tivesse visto não lembrava. A performance daquele sujeito me fisgou de um jeito que não tive como não dar-lhe pelo menos uns R$ 10,00. Aquele artista/pedinte descosturou todas as idéias que me deixavam com uma pulga atrás da orelha, quando me falavam sobre equilibrismo. Ora, logo com uma bola de gude, coisa que eu sempre curti muito na infância. Gostei demais do que o pedinte fazia com a ximbre. Lembrei das vezes que eu ia jogar com os meninos mais espertos quando criança, e perdia sempre. Resultado: voltava pra casa aos prantos, num choro inconsolável. Prometia pra mim mesmo que iria ganhar na próxima vez. Não era sempre que acontecia o esperado. Mas jogava sem parar. Nunca aprendi a desistir. Ao invés de equilibrar uma bola de gude na ponta do nariz, aprendi a equilibrar o mundo nas costas, como se fosse uma criança que ganha sempre com as ximbres que perde.

Comments:
Realmente há coisas impressionantes! :)
 
Encontrei muito talento aqui também. Aliás, foi a coisa mais bonita que li esta semana. Sem dúvida. Adoro esses casamentos do presente com o passado e as pequenas lições que tiramos do que podemos enxergar.
 
Um bom texto.
Parabéns
Ando mesmo equilibrando bolinhas de gude no nariz, grande e pequenas ilusões.
Muita Paz
Fernando Farias
 
Sempre que ando pela rua e vejo manifestações arttísticas "atípicas" percebo que muita gente simplesmente não dá o devido valor.
Nem falo sobre dar dinheiro ou coisas do tipo, mas sabe... Apreciar de verdade. Ver beleza naquilo.

Beijo!
 
"cadê? onde é o papa?"
"é no palmo?"

... já q ñ é sempre q se ganha, na oportunidade de ganhar... é preciso dá um "birrada" nos problemas da vida.
 
Oi Wagner :D obg pela visita no meu cantinho..vim retribuir..:D

muito bom seu texto e eu gosto bastante qd se fala do cotidiano..
são experiencias como essas que nos tornam quem somos..bacana :)

ateh mais :*
 
aqui na cidade ta faltando é isso, artistas na rua, e não de rua. que seja os dois. se vc andar pelas ruas de salvador, da forma como falou acima, acho que vc gastaria uns 500 contos so com as bahianas
 
Eu nunca aprendi a jogar bolinha de gude! Mas sempre tentei, era café com leite, mas tinha um monte.
=)
Eu gosto desses artista. DESSES também.

Beijo grande.
 
Este comentário foi removido pelo autor.
 
numa crônica simples, você conseguiu falar sobre uma porção de coisas essenciais. voltarei aqui mais vezes.

obrigado pela visita&comentário lá no blog. :)
 
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