16 abril 2009

 

Andar, andares


Subiu ao 3º andar. Não havia dito nada. Tinha acabado de entrar no apartamento como se estivesse com os testículos amarrados. Quase que se arrastando. Em tom de silêncio, tinha sentado no sofá sem ao menos fazer qualquer barulho que fosse. Deitou a cabeça na almofada. Com alguma leveza tentou alcançar o controle da televisão. Seu braço foi pouco para fazê-lo. Como se o corpo tivesse vindo de uma batalha, permaneceu ali sem que os de casa o percebesse. Havia entrado e não notou sequer a mesa posta. Talheres e copos de acrílico a sobrepunham. Novas cortinas balanceavam rente ao vento que agredia o tecido fino que a compunha. Era leve a luz do abajur que tentava segurar a claridade do dia, que regressivamente dava sinais de abandono. Por muito que fosse, aquela cena não era algo que conseguisse obstruir o cheiro da comida que evadia dos pratos à mesa sobrepostos.

***
Houve algum ruído lá embaixo. “Pode ser o papai”, disse um deles. A mãe retrucou: “deem uma olhada, vejam se já foi ele que chegou mesmo”. Os dois correram até a antesala. “Dá uma olhada pela janela para ver se tem alguém lá embaixo tocando em um dos interfones”, repetiu o menor. Passaram pela sala sem que percebessem as almofadas ao chão. Apenas a janela central da antesala os atraiu. Encostando o peito na borda inferior dessa janela, ao olhar janela abaixo, o filho maior viu o corpo do pai estendido, de costas para cima. Era sangue o que escorria pelas orelhas e estampava a calçada. O corpo parecia estar mole, com os membros como que partidos. Parecia ainda arfar, ou mesmo está engasgado com o ar que lhe fugia pela boca. Sequer deu tempo de os meninos gritarem, os que passavam pela rua já o haviam feito, e já haviam partido para cima daquele homem que havia se jogado janela abaixo. E agora, em que andar o pai daqueles dois meninos estaria agora?

Comments:
um dia passa...
 
Wagner, teu texto traz uma bela descrição...as palavras se encaixam.além disso, há m duê de desespero que se desfecha no final.Gostei.Obrigada ela visita em meu blog.
 
há um "quê"...erro e corrigo, rs
 
Alguns não suportam o peso que carregam, o fio que os sustenta é fino demais. Alguns passam despercebidos com suas dores e só são notados quando se espatifam.
Será que encontram remédio em outro andar?
 
...deverias levar teus personagens pra o analista antes de matá-los. Morrer sem antes esqcer quem somos, isso é castigo...
Bandido!Não me confesso mais contigo, podes me levar ao suicídio.
 
O Vicente Miguel achou que seria isto-isso uma piada. Piadinha-fim-the-end.

É conto ou que?
 
kkk e o que porra? Aquilo é só uma resenha. Wagão tens posts fulero bicho, tá lendo um livro aí posta, estou lendo um livro, estou na metade (risos) vou postar aqui para os amigos uma passagem... É só isso, tem visão do livro não. menino pow. ficou ficou.

miguchinho
 
pro andar de cime, infelizmente! (ou de baixo, né, vai saber)

obrigada pelo comentario no blog, também gostei bastante daqui.

:)
 
oiê, cumpade.
que texto!
obrigado pela visita.
tô te acrescentando na minha lista de blogs...
abçs
 
Em qual andar ele está não sei. Mas que depois dessa cena os filhos se encontram no fundo do poço, não tenho muitas dúvidas.

Adorei o texto.
Beijo!
 
Acho um certo egoísmo ir embora de repente, largando todos quenos amam por aqui...

mas também seria egoísta viver pelo outros...

Sei lá, acabei de descobrir que não tenho uma opinião formada sobre isso! rsrs

Abraços
 
Muito legal seu texto, vc escreve muito bem...=)
Belo desfecho, mas triste história...=/
 
Wagner, estou sempre acessando seu Blog e algumas delas dando "minha opinião" sobre o 19º FIG. Acontece que ao ser exposto - o comentário -aparece com três horas e meia antes, entende? Tenta "arrumar".
Abraços do Miguel Alves (Arapiraca)
 
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