10 janeiro 2009

 


PSICOLOGIA DE UM DIA


Logo ao raiar do dia: acordei como quem foge. E como se não bastasse o espasmo solar que reluziu em minha janela, de pronto invade-me uma sombra fresca como que atrevida. Então – sem fartar-me – de pressa dirijo-me ao banheiro. Um jato de água gelada no rosto, e umas escovadas boas nos dentes, conseguiram me avivar por completo, definitivamente. Não fosse isso, uma friagem espessa me entra pelo vasculhante como se procurasse algo. Já embaixo do chuveiro, deixo os fios de água me escorrer como se entregar meu corpo às gotas e ao ralo fosse a maneira mais covarde de fazer um pouco do que sonhei durante a noite fugir em meu suor – que era agora a água e a sede do que não finjo não confessar a mim mesmo. Enxugo-me, trombo na pia. Um banheiro pequeno é sempre uma promessa de pancadas. (Afinal, o banheiro é o lugar onde mais se fica à vontade.) Abro a porta do banheiro. Saio. Vou ao quarto. Visto uma roupa: cueca, calça, tênis, camisa. Não é preciso pentear bem cabelo. Deixo-o mastigado. Endereço-me a cozinha. Espero a água ferver, faço café. Goles apressados. Sou invadido por uma onda de pensamentos que me perseguem até o último giro da chave, ao fechar a porta quando ao sair de casa. Troco de calçadas. Cruzo as ruas como quem não sabe aonde vai. Sou todo ouvidos. (Ouvir é deixar as coisas chegarem perto de nós). Deixo apenas o barulho das buzinas dos automóveis e o chiar dos pulmões dos transeuntes me seguirem. Porque para aonde vou só meus passos o sabem. Vou, somente. E quando mais tarde chegar, quero apenas ter a certeza de que o dia seguinte será unicamente o fluxo do que minha vida segue, sem quem a noite me apresente o que o próximo dia me prepara.


Comments:
Curiosamente sempre que passo aqui me lembro de Virgínia Woolf... Uma vez, à mesa com a família ela perguntou ao sobrinho sobre o dia dele, mas ele não disse nada. Nada tinha lhe acontecido... Ela perguntou se ele viu o sol nascer. Ele confirmou... Tudo aconteceu ali. E você sabe disso. Você mostra isso através de um post desses. E eu te agradeço por me lembrar que as coisas não deixaram de acontecer... Acabei, finalmente, de te linkar. Até outro dia amigo...
 
A imagem me lembrou um casa que vi há muitos anos em Garanhuns.

Pensamentos que fazem caminhar. Nas ruas, por dentro de si, pela vida....

abraços
 
Oi, tudo bom?
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gostei demais do que li. principalmente "do amor, de qualquer forma". engraçado... eu sempre costumo gostar de qualquer forma do amor. :)
 
Hesse
 
Segue o Sol fustigando o olho que dorme de um lado do rosto...
O eterno enlace dos desejos....
Bom texto.
 
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