05 outubro 2008

 


Foto: Tiago Luiz Riccio


O MUNDO É CÃO

Era um vento quente que soprava naquela noite. Estava difícil saber o porquê de já fazer pelo menos três dias que seu filho, Arnaldo, ainda não havia voltado para casa. Sônia preferiria acreditar que, como sempre, ele havia se metido numa enrascada, e estava por passar alguns dias fora enquanto “a poeira baixava”. “Logo estaria de volta”, especulava. Aquela mulher de seios fartos e pele negra, naquela noite foi dormir logo cedo, como sempre. Numa favela nunca é aconselhável está com as luzes acesas até tarde. “O mundo é cão”, pensava ela. Porém, seu filho de apenas 14 anos já era senhor e mestre na arte da vida. Da vida fácil. Facílima. Ciente disso, Sônia não se deixava atormentar. Desviava seus pensamentos. “Melhor pensar em outra coisa”, se convencia. A noite já ia longe, correndo. Apenas as luzes pontilhavam o escuro da periferia acesa. Vez por outra, o ronco de um ou outro carro cortava o silêncio que invadia os becos e as minúsculas casas. “Puf!”, foi o barulho de um saco jogado na frente do barraco de Sônia. Por conseguinte, passos se aceleraram ao se livrar do saco, a ponto de se tornarem corrida, tomando a direção do beco mais estreito que por ali havia. Sônia estremece em sua cama. Um baque no coração. “O que será isso?” Não havia ninguém que tivesse tamanha coragem para ir lá fora ver o que seria aquele barulho. Início de um tiroteio? Um roubo? Enfim, um crime? Por certo, pensar que fosse algum desses não era pensar erroneamente. Sônia salta da cama como se fosse ao encontro de algo sobrenatural. Olha pela fresta da portinhola. “Um saco mesmo”, conferiu. Jogado. Ao perceber que, fosse o que fosse, ninguém havia dado a mínima para aquilo que se encontrava largado, Sônia, movida pela sua curiosidade, é impelida para averiguar aquele saco, uma vez que sua mesma curiosidade foi fermentada mais ainda quando se juntaram três ou quatro cachorros a farejá-lo, lambendo-o, mordendo com gosto aquele saco. De repente aquela mulher forte e de pele escura, afastando os cachorros, chega junto ao saco rasgando-o com um golpe de canivete: eis que encontra Arnaldo com pelo menos sessenta por cento de seu corpo carbonizado, porque o restante da matéria, salvo parte da cabeça, era só sangue e tecidos em putrefação. Conheceu seu rebento pelos cabelos encrespados e parte do rosto que ainda conservava bem o talho que seu filho tinha na testa, intacta. Gritando desesperadamente, Sônia se atira sobre aquele cadáver, em meio a soluços e lágrimas, resvalando-se na podridão do corpo putrefato. A carniça era nada para Sônia. As pessoas, que sequer se aproximavam, ficavam, sem sair de seus barracos, fitando aquela mulher em agonia. Sua dor misturava-se com a quentura da noite. Não sabia o porquê de terem feito aquilo com seu filho. Àquelas horas, de que valia sabê-lo? Não obstante soubesse algumas regras da vida fácil, nada iria conformá-la. Nada que justifique a morte conforma uma mãe que perde seu filho. Talvez pudesse vir alguém e ensinasse a Sônia a lição que quase ninguém aprende: o mundo é cão. Pois, tanto se vive quanto se morre sem explicação. Facílimo.

Comments:
Sem explicação não, a morte aí foi anunciada mas só Sônia não viu.
Que triste vida, que triste morte, que triste solidão.

lindo dia,
beijos
 
que bom, wagner. meuc arinho pra vc.
bj
 
é rapaz, a nossa realidade é essa.. o mundo é cão, mais pra uns do que pra outros...

beijos
 
o mundo é um moinho.

obrigada pelas palavras deixadas por lá, volta quando quiser.

beijo!
 
Obrigada pela visita! Eu quero muito me formar em Letras também. Parabéns, tu escreves muito...

Beijo.
 
Primo acredito que têm gente q faz o seu mundo cão!!!
Primo, Vc é um orgulho pra mim.
Bjinho no coração.
Aninha.
 
muito bom seu texto.
todos. gosto muito de vir aqui buscar inspiração, mesmo que seja de um mundo cão que é impossível de se ignorar.
 
pobre Sônia!

beijos, querido e boa semana

MM.
 
Um beijinho para você, meu sensível e tão inteligente Wagner !
 
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