19 setembro 2008

 

Pintura de Salvador Dali


IRREMEDIAVELMENTE


Quando fico sem fazer nada fico me desocupando. Inventando na desocupação uma maneira de tudo fazer sem preencher a falta do que descubro – preciso mentir que não faço nada: para no poder das palavras encontrar o conforto que me falta: o tempo que me foge entre as mãos. Foge como um espirro na poeira, como um cavalo que vê a porteira aberta. Nas palavras é que estão a liberdade e a desgraça de um homem. Liberdade porque todos têm o direito de usá-las, e desgraça porque todos têm o dever de se comprometer com o seu uso. Fico então explorando o direito que tenho de usar as palavras para inverter a ordem das coisas, fico fingindo que posso dizer as coisas como se elas não estivessem ditas no que calo. Digo coisas sem me comprometer com o que digo. Desdigo, melhor dizendo. Todo homem que se preze tem que ser um pouco contraditório. A retidão de um homem o torna ridículo. Por isso, por mais que um homem seja extremamente infeliz, um sorriso diante de sua lágrima revela sempre uma grandeza de espírito. Ora, todo homem é desencontro. Todo homem deve perder-se. Inventar-se. Isso explica porque fico me inventando sem compromisso algum com a pessoa que crio. Ou aborto. Encontro na falta do que faço, coisas irremediáveis. Coisas que não se ajustam por si: uma sombra estranha que se esvai, um ponto firme como um poste na calçada, uma pena que se solta de um ninho, uma palavra perdida no dicionário, um cachorro com fome à porta de um restaurante, a medida vazia entra a voz e o silêncio. Me desocupo de coisas que não dá pra esquecer. Preencho o que falta com a dor que não cansa, remedio com a mentira o conforto de não poder estar, sem nenhum estranhamento.


Comments:
Uma surpresa seu comentário. Um grande abraço e vida longa.
 
Wagner, obrigado pelo comentário lá no meu blog!
Parabéns pelo seu blog, pelos textos.
Té!
 
Que bela paiasagem neste texto!
"Encontro na falta do que faço, coisas irremediáveis."
Prazer,meu caro,
Gracias pela visita em meu jardim...
e voltarei aqui sempre
"sem nenhum estranhamento"

Abraços de Flor
 
Todo homem que se preze tem que ser um pouco contraditório. A retidão de um homem o torna ridículo.

faz tempo que não ouvia essas verdades.. essas belas mentiras.
parabéns!
 
"Nas palavras é que estão a liberdade e a desgraça de um homem"

deixe de copiar Sartre sua fresco

Ô bicho e o marginal, ficou mesmo foi?

kkkkk
 
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