07 agosto 2008

 



Política X Literatura


Acerca das sacanagens da canalha política da cidade que me viu nascer, tenho recebido alguns e-mails de leitores – sobretudo do Jornal Gazeta, o qual colaboro – procurando saber qual minha opinião diante dos fatos que tem acontecido na gangorra política que vem trucidando a dignidade do que se pode chamar de “disputa eleitoral em Garanhuns”. Vejo-me então numa situação complicada. De imediato, porque na coluna (com escoliose?), do mensário que propus escrever, restringi meu espaço exclusivamente às minhas impressões de leitura, comentar obras literárias, publicar meus contos, fazer apresentação de escritores; enfim, discutir Literatura e/ou as manifestações artísticas locais ou não etc. Desta forma, não quero fazer de minha coluna um palanque para partido ou político que venha, a pouco custo, querer ganhar minha simpatia. Se sou neutro? Não, nunca! Não acredito em homem neutro nem tampouco homem apolítico. Apenas penso que só cabe a uma pessoa que consagra sua alma à Literatura se colocar no meio de caprichos políticos quando o “fazer política” neste município deixar de ser um comício de ponta de beco para, de fato, se tornar um espaço de discussões de idéias e de propostas que possam realmente resolver a escassez de emprego em nossa cidade, bem como a diminuição da criminalidade, da violência e da fome; oportunizando com isso, o direito à cidadania, a uma vida digna, que mantenha respeito para com a moral humana do indivíduo.


Pergunta-se, à vista disso: é possível ao escritor isentar-se da política? Para quê escrever? Tem como alguém que escreve se fechar em uma redoma que não deixe que sua escrita seja ferida pelo contexto social ao qual esteja inserido? Estas são questões que desembocam sempre na máxima interrogativa: “Por que escrever?” Aí está. Acredito que talvez seja mais fácil buscar responder a uma pergunta como esta do que querer entender o risco que se corre ao tornar a própria escrita uma mera via de panfletagem política. Digo apenas que escrevo porque sou egoísta, puramente. O escritor George Orwell, dizia que a espécie de egoísmo que surge no escritor, nasce do “desejo de ser comentado, de ser lembrado após a morte [...] É uma falsidade fazer de conta que este não é um motivo forte”. Porém, vou mais longe ainda. Escrevo porque tento me desconstruir, dissolver-me. Meu egoísmo é só uma maneira de relacionar a pessoa que não sou com aquela que não pretendo ser. Escrevo por impulso, por mero despropósito e pela falta de responsabilidade com o que me foge e me alcança. Escrevo porque é justamente nas palavras onde estão as coisas inalcançáveis.


É difícil afirmar isso, mas, apesar de serem lembrados, literatos como o sergipano Tobias Barreto ou como o russo Maiakovski, tiveram um pouco da essência de suas obras ofuscadas ao tentarem engajá-las a causas partidárias. Eis o risco que corre um escritor ao politizar, estritamente, sua Literatura; pois tal feito passa a ser o caminho mais ordinário para que hajam leituras equivocadas, que vêm a gerar decadência estética na obra, por vezes, reduzindo-a a forma panfletária. Não que aqui eu esteja pregando a impossibilidade de haver (pois sabemos que há!) aqueles escritores que se deram (e se dão!) bem ao mamar na Literatura e na Política. De qualquer sorte, a arte literária ao longo do tempo ocupa-se também da política, uma vez que, sendo arte, a Literatura é inerente à alma humana e, portanto, ao se alimentar da política, ambas se tornam necessárias a qualquer coletividade. Finalizo o que foi aqui posto com mais uma colocação de Orwell, que acredito contemplar a posição de um escritor frente à sua introjeção na política: “Quando se envolve em política, um escritor deveria fazê-lo como cidadão, e não como escritor”.


Comments:
Sinceramente?!
Detestooo politica hahaha
nunca confiei 100% e muito menos 50% em um politico!
Eles são assustadores"!!!
 
Wagner,

Eu complementaria, citando Rilke, que escrevemos para não morrer!

Abraço e parabéns pelo blog. Muio bem escrito. Já está em meus links!
 
Este texto está fantástico.
Mas na verdade detesto política.
Deu para entender!
marthacorreaonline.blogspot.com
Tenha uma boa semana
 
Acredito que é possível ser político ao escrever sem precisar ser explícito. A linguagem filtrada pela arte da literatura é capaz de tudo, inclusive, e principalmente, de ocultar o óbvio.
Tenha uma boa noite!
 
Parabens, meu amigo; cada dia você esreve cada vez melhor. Em tempo, gratíssima pelo comentario sobre o hai kai dedicado a Loca. Notei que o meu texto estava incompleto; fui lá e refiz. Dê uma passada or lá. Bjos.
 
Gostei do texto.
Bjs
 
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