17 maio 2008

 

Caricatura “Kafka”, de Gil Tokio


PELOS CAMINHOS DE KAFKA

Hoje, ao acordar, tive a impressão e mesmo senti algo kafkeano. Isso devido à invasão de baratas que tenho observado em meu quarto, há alguns dias já. Sendo que hoje, ao levantar da cama, de cara deparei-me com uma barata que, emborcada, agonizava demasiadamente. Mesma imagem que o escritor tcheco Franz Kafka usou para narrar a agonia de seu protagonista de A Metamorfose, Gregor Samsa:

“Estava deitado sobre suas costas duras como couraça [...] Suas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto do seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos”

Foi esta mesmo a imagem. Vi aquele pobre inseto todo se retorcendo, numa aflição tremenda. Não sei se para desemborcar-se, ou mesmo para pedir ajuda a alguém. Era, de fato, uma barata que ralava as costas ao chão para tentar se pôr ao avesso, aflita. Eu, sim, bem que poderia ajudá-la. No entanto, não o fiz. Primeiro, porque não me imagino às sete da manhã pondo as mãos em um bicho horripilante. Depois, acredito que todos (inclusive os bichos) temos direito a uma agonia particular e egoísta. Deixei, então, a barata sofrendo ali, nauseabunda, no canto dela. Desesperada. (Tomei banho. Tomei café. Fui trabalhar. Enfrentei o caminho solitário da ida. Cheguei ao trabalho. Estresse. Muito. Enfrentei o caminho solitário da volta. Cheguei em casa. Recolhi-me à mesa.) Fui ao quarto. Lá estava ela. A barata. Morta. Estática. Suas finas pernas não mais reagiam. O corpo já não implorava mais por nada, nem a ninguém. Não prendi bem meu olhar ao aspecto moribundo do inseto morto. Saí chutando-o. Devagar. De meu quarto ao quintal. Pela sala, pela cozinha. Chutes secos e leves. De bico.

Pus, agora a pouco veneno em meu quarto: para matar essas inquilinas (as baratas) sem contrato que vivem por aqui. Quero dar mais chutes amanhã, quando já houver percorrido o solitário caminho da ida e da volta do trabalho, e assim, quando chegar em casa, sair chutando, lamentavelmente, as baratas mortas: recolhidas em seus caminhos da morte: que são, afinal, os caminhos mais egoístas e particulares.


Comments:
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e o marginal, cadê?
 
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É ... tem certa verdade em dizer que a morte é egoista.
 
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