19 março 2008

 

IMOLAÇÃO DOS OSSOS (Romance)
Capítulo 7


E era como se fosse um desespero. Desespero tal como os ventres que não cospem homens. Veio-me aquela sensação de estar no escuro e sentir uma bala me queimar os tecidos – resvalo de pele que o disparo aquece. Tenho um apego muito grande ao que esquenta à minha frente. (Ou ao lado.) Ou até mesmo ao que me imerge. Ou ao que me fica inocente, como os sapinhos que eu gostava de ficar olhando no esgoto em frente a minha casa. (Eram sapinhos que ficavam parados, quietos. E eu sempre tinha a sensação de que eles estavam com vontade de pular ou arrotar. Eles prendiam a respiração, enchiam o papo de ar, arregalavam os olhos, mas sempre ficava algo preso na respiração deles: então me dava vontade de cantar ferrugem, inventar. Aquilo sempre me pareceu uma frase ao contrário. Será que o contrário de uma frase é sempre o silêncio? Mas para quê se preocupar com o silêncio. Acaso existe silêncio? Sabe-se lá! Eu acreditava que o silêncio era um barulho mudo. Por isso eu descascava todos meus gritos nas palavras que eu brincava antes de (*) me entrar pelo barulho da vida. Porque toda vida sempre desmancha a forma de calar o que se grita ou aflige. Mas aflição foi coisa que nunca me desmoronou. É porque sempre fugi o tempo todo do que nunca me afligiu.) Eu corro assim: imagino um rio em minha frente, e nele deve sempre algo boiar: uma perna (só uma perna) sobre as águas, um bote sem superfície, uma latinha de cerveja corroída pela tristeza de estar somente vazia, boiando. Espécie de abandono. Assim é que vivo nesses momentos, eterno abandono: me abandonando aos poucos: me largando por fora e por dentro. Gosto de me largar assim porque me inutilizo. É como se eu jogasse as minhas desnecessidades numa garrafa e as engolisse, todas: como se fosse ferrugem, de um prego. Prego é uma coisa que não merece ferrugem, pois ele geralmente já sofre o que deve quando machucam sua cabeça. Pois a cabeça é o que ama, o corpo não. A cabeça só foi feita para acusar erros, confessar culpa. Por isso, amo aos poucos. Devagar. Sem culpa. Foi a maneira mais fria que aprendi para esconder o amor que me falta e me persegue, a dor que em mim silencia: sem cuidados: como um ventre aberto. Quieto.

Comments:
imolação dos ossos já é parte das minhas leituras preferidas.Quero ver essa narrativa publicada em papel e tinta. Com abraçares,Graça Graúna
 
engraçado,
acho que ainda lembro de vc... de leve.
 
hum eu gostei disso.

beijos
 
adorei o texto... a imagem dos sapinhos..

comentário meio vazio.. é que tem coisas fervilhando...

obrigada pela visita e pelo comentário...

vou te linkar para voltar mais vezes... me lnke tb!

bjs
 
Bicho Muito Bom.

Na moral. conseguiu o equilibrio que eu tinha falado.

Gostei mesmo
 
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