03 janeiro 2008

 

Pintura "os sapatos" (Van Gogh)



IMOLAÇÃO DOS OSSOS (Romance)
Capítulo 4


Invento um pouco de tudo. Procuro (*) no que não falo. Mantenho um encontro brusco com o que desprezo. Desprezar é apagar o que existe porque o aceitamos. (*) não poderia ser uma ausência em minha vida. Primeiro, porque as pessoas que amamos nunca nos fogem, salvo sem o consentimento de nossa alma. Depois, porque a ausência sempre deixa os rastros necessários para que nunca percamos de vista a outra pessoa. Ainda que ela própria perca-se a si. Como explicar tal fato? Na inexplicação! As coisas inexplicáveis são a maneira mais fácil de explicar o que não se explica. O que não se sujeita. O que segue. A algo. Ponto estreito. Nó que se extingue. Cadarço quebrado. Sujo, nas pontas.

Sei das pessoas que se vão. O sei pouco. E quando o admito, modifico-me. Como se nada me viesse à lembrança. Aquela lembrança vaga do que me salta quando lembro de algumas mulheres que aos fins de tarde sentavam-se ao meio fio das calçadas de minha rua para tagarelar. Tardes que parecem ter sido toda uma preparação para um advento de (*), que invadiu-me nas minhas partes incertas. Oh, o que não é incerto nesta vida? Sentimentos são incertos? Pessoas se vão? Existe o explicável? O amor, quanto tempo perdura?

...sei apenas de mim. Busco falhas.

Atrevo-me.

Qual o preço das coisas...? Como se responde sem saber o valor de tudo? Refaço-me. Porque toda pergunta que nos custa responder nos leva a refazer um pouquinho de nós na estreita estrada chamada “momento”. Que é o momento senão a palavra curta que se dá entre o que a idéia oferece e o tempo transpõe? (*) nunca foi de mim um presságio. Deixo ser. Porque o é. Careço de passos. Um sinal. Um canto, porque a voz me emudece. Depois de algum tempo o melhor é calar.

Comments:
Melhor blogar, atrevo-me!!! hehehehe
 
um texto lírico Horttiano

"Porque estes olhos também são teus. Há neles a tua nudez de elástico. Tua sombra. Tua caligrafia. Há neles, não as tuas estrias, nem as unhas estambocadas, mas tua calma, tua hora de lesma, tua hora sem vento, tua língua me enraizando. Tua ciência de ficar no chuveiro. Há um pouco de sal, um pouco de chuva. Há lamentos e arco-íris. Há tua cabeça baixa. Teu relógio. Tua tatuagem. Tua febre. Tua confissão. Teus brincos."
 
Vim visitar seu blog pela primeira vez, depois d euma vez que comentou no meu :)

Voltarei sempre, agora!
 
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