14 janeiro 2008

 

foto: Alberto da Cunha Melo


Neste post, 3 poemas de um grande poeta que nada deveu a outros grandes de nosso Brasil. Falo do poeta Alberto da Cunha Melo (1942-2007). Poeta este que o Brasil não conheceu (ainda?), embora recentemente seu último livro, Cão de Olhos Amarelos e Outros Poemas Inéditos (2006), tenha ganhado o reconhecimento e um conseqüente prêmio da Academia Brasileira de Letras em 2007, poucos meses antes de sua morte. Alberto nasceu em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife. Foi Sociólogo e Jornalista, tendo se envolvido em agitações culturais mais tarde na capital pernambucana. Foi apontado como uma das vozes poéticas mais originais na dita “Geração 65”, apresentada pelo poeta e crítico César Leal (ainda vivo), nas páginas do até então muito vigoroso Diário de Pernambuco. Publicou livros com indiscutíveis valores poéticos, tais como: Dois Caminhos e Uma Oração (2003), que engloba três títulos: Meditação sob os Lajedos, de 2002; Yacala, de 1999; e Oração pelo Poema, de 1967. Sem delongas, vamos aos poemas:


RELÓGIO DE PONTO

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.



CONDENSAR/CONCERTAR

A vida aqui fala bem claro,
mas sem a eloqüência da lágrima;
como a renda, como a poesia,
é uma linguagem concentrada;

é cloro na água da piscina
da cobertura, lá em cima,

onde Clara, uma pós-donzela,
posa nua para o helicóptero
que faz evoluções sobre ela;
e a luz do sol, como toalha,
só existe para enxugá-la.


ORGASMO

Todo corpo, em seu esplendor,
divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,
porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.

Comments:
adooooooro ele!

tive o prazer de produzir uma entrevista que ele deu para o Palavrão e de quebra ganhei um livro lindo, autografado, chamado Poemas para Clau.

beijos, querido e bom começo de ano

MM.
 
nossa, ñ sabia deste. mas, enfim, ñ sabemos d tantos, ñ é? ^

imagina se fossemos incubidos d, em uma vida só, descobrir e ler tds os livros do mundo?

gostei principalmente do primeiro, pq vivo mto esse momento, dessa dúvida d seguir em frente pra bater o ponto. fico me perguntando se a vida é mesmo pra ser vivida seguindo tanta burocracia. para q se criou a nossa vida? para ser burocratizada, com carteiras d identidade e idetnificações empregatícias? é foda.

ñ gosto d levar nada a sério, principalmente a vida.

bjo.
 
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