07 outubro 2007

 


Pintura de Rubens


Balada dos Enforcados*

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era carne viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte só um dia
Para livrar-nos do Inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis-
Nos de pêlos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria
Mas suplicai a Deus por todos nós.


FRANÇOIS VILLON (1431 - 1489)

[*= Tradução de Augusto de Campos]

Comments:
só pra dizer que passo.
sempre.
=******
 
eu ja conhecia esta "balada"! Adorei sua visita. Bjs
 
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