10 agosto 2007

 

O CASO DA CATOTA


Eu me encontrava entre um dos últimos da fila. Sempre odiei filas. Nunca neguei minha repulsa a filas de qualquer coisa; ainda mais quando às vezes me vejo sendo um dos últimos. Não estava quente o tempo, mas pra mim em fila de Banco qualquer temperatura é sempre quente. Já era à tarde. Estava eu corizando um pouco. No entanto, desde a manhã eu assuava o nariz com um tipo medonho de desespero. Foi, então, que ao largar o dedo indicador no nariz, percebi que uma catota, de certa forma crescida, recobria com volume a cavidade nasal de uma de minhas narinas. A da esquerda. Coisa que sempre gostei foi tirar catotas. Uma terapia pra mim. Porém, nunca entendi porque até hoje dizem que é feio tirar catotas, quando na verdade isso não passa de uma higiene nasal. Sim, instantaneamente deu-me vontade de tirar aquela catota de minha narina esquerda a qualquer custo. Mas confesso que não consegui me sentir de todo a vontade para cutucar meu nariz em meio a tantas pessoas que se encontravam, igualmente a mim, na maratona de uma fila de Banco. O pior de se estar no fim de uma fila é ser alvo do olhar daquelas pessoas que estão muito à sua frente e olham pra trás com aquele olhar de “estou-chegando-lá-e-tu-ainda-estás-aí!”, como se estivessem a um passo de se libertarem de um mal que molestasse sua alma.

Minha aflição começou quando me subiu aquele fogo de “tenho que tirar essa catota e tem que ser agora”. Passava a mão no nariz. Tentava enfiar o dedo discretamente. Chegavam mais pessoas atrás de mim. Tepeava que estava apenas alisando o nariz. Por incrível que pareça, era fato perceber que sempre na hora em que eu ia enfiar o dedo, constantemente havia algum olhar perdido para flagrar minha narina esquerda tentando ser invadida pelo meu próprio indicador. Por mais que eu tenha tentado deixar transparecer minha personalidade ríspida, a verdade é que a todo tempo eu tentei velar, ainda que isso fosse a duras penas, a minha imagem elegante e reta. A fila parecia cada vez mais crescer a minha frente. Alguns olhares, por afigurar perceber aquela minha agonia, pareciam voltar-se para mim. De repente, em meio a pensamentos que sombreavam meu estorvo, me veio à mente o vulto de minha avó, quando lá pelas tantas de minha peraltice infantil ela me acuava com o dedo no nariz:

- Eita, esse minino só véve com esse futucar nas venta pra mó de tirá esse ranho!

Foi uma lembrança dissoluta, fugaz. Logo voltou minha ânsia. Talvez não soubesse mesmo a escolha certa: tirar a catota e ficar de bem comigo, ou deixá-la quieta e manter minha postura de homem posudo? Talvez um dilema simplório para quem sempre andou entre a linha da lucidez e a ponte do desleixo... Sem perceber, portanto de imediato, quando menos esperei, estando de fronte a moça do caixa que já me sinalizava o atendimento, descobri-me sereno ao perceber que havia vencido meu indicador eufórico. Tinha chegado ali vencendo meu desejo de extrair aquela catota. “Venci a mim mesmo... ah, e à catota também”, pensei.

- Ah, seu troco é este.
- Hum... Ok. Respondi com ar de alívio.

Como se ter chegado à conclusão de que havia conseguido muita coisa ao vencer o desejo de não ter tirado a catota naqueles instantes fosse um motivo de muito orgulho para mim, foi também ter chegado ao caminho tranverso de minha frustração. Nunca imaginei que, num leve expirar meu, aquela catota irromperia como um floco solto no ar em uma das mãos da atendente. Ao perceber aquela catota fugidia que saíra de minha narina em suas mãos tão brancas, a moça olhou-me com um olhar prudente e sisudo, causando-me a impressão de que iria me atirar palavrões. A moça nada mais fez que levar a catota à boca, e conseqüentemente mascando-a como a um chiclete; desviou-me o olhar, fixando-o na fila, e, se dirigindo a pessoa que atrás de mim se encontrava, proclamou em tom apressado:

- Próximo!

Comments:
Uh... parece que era eu quem estava vendo a atendente se deliciar com a goma de mascar nasal.

Adorei o texto!

Beijos!
 
amigo só posso dizer ÈCAAAAAAA!!!!...rs Beijosss
 
Ai que nojo!!!

Se você cuidar da sua higiene no banho não passará por tais desconfortos na rua, kkkkkkkkkkk

eca, eca, eca, detesto meleca, kkkk

beijos e bom fim de semana, querido

MM.
 
huahuahuahuahua,... catota?
Aqui no sul é ranho mesmo!!!
 
"Porém, nunca entendi porque até hoje dizem que é feio tirar catotas, quando na verdade isso não passa de uma higiene nasal"

kkkkkkk

eu tiro catota na sala de aula e meus alunos achamojento, ai eu joigo catota neles.

o texto surpreende pelo desfexo. Parabens Wagner Marques. Gostei

abração companheiro
 
Amigo.

Nem tudo que é imagem na internet está disponível pra qualquer um meter a mão e publicar onde quiser.

Esta imagem foi furtada de meu blog e se fosse feita por mim, sinceramente não veria problema, desde que pusesse os créditos. Mas neste caso, foi uma profissional de ilustração que a fez pro meu artigo, autorizando o uso da mesma pra isso.

Além de furtar a imagem sem nem ao menos colocar nenhum crédito, você está linkando a imagem diretamente de minha url, roubando o tráfego do meu servidor, que é pago mensalmente.

Por favor, retire a imagem.
Produza suas próprias. Isso nada custa e pode simplesmente tirar fotos, como eu mesmo faço na maioria dos meus artigos.
 
.. como não se deleitar nas filas desse Brasil lento....

abrç
 
Wagner, de maneira geral nem gosto de poesia.
Liliane de Paula
 
Posso sugerir um título batido? Entre catotas e caixas.
 
catota?? XD

nunca tinha ouvido falar em catota

hauahuhau

ugh.. que nojo isso...
ok.. higiena nasal.. mas comer...

¬¬

bjuuus
 
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