21 junho 2007

 

SOBRE O SILÊNCIO E SUAS MANEIRAS DE PROFANAR AS COISAS


Andei pelo silêncio da cidade, tentado devolver às ruas o que elas calavam – existe algo de cumplicidade no que se refere às ruas e ao silêncio. Nunca descobri ao certo o que é fazer silêncio. Penso que só é possível fazê-lo com o corpo e os olhos inertes. O silêncio só é possível se nada em nossa matéria externar movimento. Pois todo movimento implica perturbação, e esta, por sua vez, acusa a contração de algo que provavelmente estava a desfrutar de quietude. Mas como desvendaria o que o silêncio traria na vertigem muda da cidade? Como acalantar as ruas se só conheço canções que sequer são capazes embalar o asfalto e a lama que medeiam o acesso a minha casa? Nada mal para descobrir a sensação de morte que é vislumbrada na ausência de sons que a cor invisível do silêncio causa. Sim, pois o silêncio tem uma cor que foge ao que nossas pupilas acusam, muito embora nossa alma brinque de acomodar cores nos detalhes os quais os nossos olhos não alcançam. Eu sempre tive medo de brincar com o silêncio, justamente por não saber desenhar com os olhos o que o som sempre me apresentou. É que as ruas silenciosas incessantemente fizeram meus pés dançarem mesmo antes do vazio que havia nas notas musicais que sempre chegaram aos meus ouvidos, como se cada acorde montado penetrasse no que há de mais sagrado na zona fronteiriça do som e das formas cromáticas. Aprendi que silenciar é mudar de rumo, de cores, de espaço. Isso me fez perceber o quão é pequena a cidade sob pés de quem silencia. Pois todo silêncio é sagrado, e só as coisas sagradas é quem merecem ser tocadas. Assim, vacilando entre as calçadas, foi que encontrei a forma mais salutar de restituir a mudez que as ruas me concederam: perdoando o que me faltava, julgando o que me foi sentenciado, celebrando a mão que se despedia, incinerando o lenço lavado de lágrimas, descansando a minha voz no barulho – como se cada vibração vocal fosse um pecado, um testamento, um templo em que apenas seu deus pudesse tocar a vulva profanada de tanto silêncio.

Comments:
menino eu não consigo ficar no silencia nem qdo durmo! Mas bem que gostaria de experimentar...beijoss querido
 
Pensava nisso ontem...
Gosto do silencio em momentos como este... Uma espécie de extensão da madrugada.
Mas para o trabalho com a arte gráfica no computador - não suporto o silencio. Sou nula. Nada faço...
Preciso dos uivos ensurdecedores de sons em forma de músicas. Outras formas de composição que me deixam de bem com minhas vilas.
O silencio em alguns momentos enlouquece (risos).
Gostei da sua composição. É a segunda vez que venho aqui e já começo a me surpreender com você. Bom sinal..
Novas descobertas na terra virtual.
Abraços e bom fim de semana.
 
uma visão nova do silêncio
q me fez repensar o silêncio por si só
o silêncio por completo é te um todo dificil de existir


ótimo final de semana

" Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!"
(Florbela Espanca)

Bjos da -=Þëqµëñä Þö놡zä=- !!!
 
( )
 
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