16 maio 2007

 

ESPECTADORES DE PORES-DO-SOL


Os dois velhinhos estavam sós. Infinitamente sós na pracinha principal da cidade. Sentados num banquinho acimentado. Um casal. Nada ou ninguém parecia lhes perturbar. Nem ao menos o canto estridente da garrincha que se esgoelava sobre um galho da sibipiruna que sombreava quase por completo a praça. A tarde já acenava à chegada da noite, as cores morriam na marcha leve dos ponteiros. E um olhava para o outro com a terrível sensação de mudez. As bocas de ambos se abrigavam num silêncio intocável. Percebiam-se os movimentos mortos dos lábios, como se cada tecido quisesse reagir ao que a carne por ora ansiasse negar. As palavras ficavam inertes, intactas, como se tocá-las fosse conhecer algum peso que as molestasse sobre o próprio barulho que elas poderiam causar. Era um cerrar de olhos medonho. Uma tremura desgraçada nas mãos desdadas. Um bocejo infernal a cada um sexto de hora. A tarde sumia-se discreta por entre a vadiagem do tempo, enquanto o calor inconcebível de suas almas fazia com que qualquer distância entre si fosse consumida.

- Anoitece, é hora de velhos tomarem o assento de casa. Disse ele com a voz rouca e parca.

- Tanta coisa anoitece e às vezes a gente nem percebe; principalmente quando fechamos nossos olhos ao que os dias nos dão. Entranhar-se em casa é querer se esconder ou da luz ou da treva. Ela rebateu mansa.

- Sabe, Gerusa, tenho tanto medo de que não mais vejamos juntos esses pores-do-sol... Sobretudo, porque damos a eles o silêncio que eles merecem, e depois porque é sempre bom perceber o quão é salutar aprender que não há trevas obscuras de um início de noite que não findem com os raios incandescentes de um começo de dia.

- É, Altemar, o medo é assim mesmo: ele nos afasta das coisas. Mas, não devemos temer enquanto a isso, não. Todo dia nasce e morre um sol dentro de nós, basta que percebamos; e assim, seremos mais felizes, quando aceitarmos que esse nascer-e-morrer de luz não surge só fora da gente, mas tão somente dentro da gente.

Ficaram quietos por alguns instantes. Ela agora com a mão sobre o ombro dele, e ele com seus dedos riscando ou desenhando qualquer coisa na areia da praça. Após algum tempo levantaram-se iguais como se fossem caminhar em direções opostas, todavia tomaram a mesma direção. Ele um pouco apressado, ela vagarosa. Até que se ladearam, com as mãos se encontrando num enlaçar frouxo de dedos. Caminharam com passos desmedidos. Infalsos. Tímidos. Era sempre com se fosse a primeira vez que os passos se encontravam. Voltavam para casa. Sempre em meio a passos lerdos. Voltavam sem resignação alguma, com os olhos firmes no chão, com as bocas recheadas de silêncio; entre eles o silêncio das palavras bastava. Cada palavra que guardasse para si o mel e o veneno que continham, era tudo. Voltavam sós para casa, achando no vazio da rua a mais perfeita harmonia para fincarem a luz que dentro deles nascia, infinitamente.

Comments:
O amor é lindo. Não importa a idade.
Liliane de Paula
 
Eles "se têm" isso faz a força de seguir adiante, que esse caminho seja longo e a ausência breve.
Lindo findi
beijosssssssss
 
Os sentidos, verdadeiros e reais.


www.bonequinhodeluxo.com
 
vezes fechamos os olhos...
é tão simples abri-los, e vezes nos custa. mas não me silencio por auto-desitência... é só uma questão de silencio para me ouvir... e perguntar aos meussentidos!
um abraço e um sorriso!
fico feliz com seu desassossego por aqui e ir para o meu espaço.
 
olhar aguçado, vc tem.
parabéns, mesmo!
até a próxima.
 
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