13 abril 2007

 



GARATUJAS, PAPÉIS EM MINHA LETRA


Durante a pré-adolescência, o acanhamento não me deixava se aproximar das meninas da escola em que eu estudava. Ficava quieto, sofrendo em segredo. Doía porque apesar de não ter um contato absoluto com elas, o comportamento e a beleza de algumas eram o suficiente para que eu me apaixonasse. Mas, coragem para dizer o que estava sentido: nada. Apetecia em silêncio. Ficava danado quando qualquer uma delas surgia ao meu lado com aquelas conversinhas de paqueras e flertes com outros garotos, apenas como desabafo ou confissão para se mostrarem “mocinhas”. Naqueles tempos a professora havia me dito que eu escrevia bem, tinha idéias boas; no entanto, minha letra não passava de “uma garrancheira”, dizia na frente de todos. Mesmo assim eu já havia pressentido que escrever para expressar sobre o que eu sentia por algumas das meninas de minha sala (sim, porque já cheguei a me apaixonar por três ao mesmo tempo) era bem mais fácil do que pessoalmente chegar e, cara-a-cara, disparar meus apetites sentimentais.

Deu-se o dia em que decidi escrever a elas. Mostrar o que se passava no coração daquele menino que ficava acanhado na 2ª cadeira da 6ª fila. Escrevi uma carta à Manoela, lembro-me das primeiras palavras da carta: Aqui nestas sôfregas linhas se infiltra o sentimento de um homem que suporta a vida a custo de um amor que não faz ruídos (...). Esta carta teria mais ou menos uma lauda em meia, e foi escrita em dois dias. Depois de entregue, 5 minutos antes do recreio, meu coração começou a bater como o de um cardíaco que dá o seu máximo ao subir uma ladeira correndo. Todavia, durante o recreio minha letra estava servindo de chacota para mais da metade de turma. “Essa letra parece rabiscos de uma criancinha quando pega num lápis pela 1ª vez”, alguém dissera e todos disparam a rir.

***

Para a Amanda resolvi escrever um poema. Escrevi-o em 5 minutos ao chegar à escola. Este poema fora escrito em um papel que embrulhava os bolos que meu pai comprava na padaria perto de casa. Deste poema lembro apenas da quadra final:

Alma minha que te sonda,
Voz da vida que se esconde,
Tua boca versos belos,
Que me beija não sei onde
.

Dessa vez chacoteavam de minha letra na aula de ciências. “As veias do corpo humano parecem com a letra do nosso colega ali, que escreveu um ‘poeminha de amor’ ”, disseram gargalhando. Quando a professora se retirou da sala iniciou-se uma guerra de bolinhas de papel. Assisti meu poema ser sacudido de um lado ao outro da sala, amassado, de mão em mão, um colega atirando-o um contra o outro. Eu não achava minha letra feia, no máximo eu achava-a diferente. Diziam que ela era mesmo uma garatuja. A disformidade dela me obrigou a aliar-me à cartilha. Incorri, então, à labuta da escrita. Com efeito, concluí que minha letra havia estragado a estratégia de desmoronar a muralha que limitava a minha timidez e o meu desejo de ser correspondido. A cartilha não adiantou muito à estética de minha escrita, pouco ela mudou. Assim, continuei a amar em silêncio, escondendo não só o que sentia, mas também o que escrevia, deixando que as coisas por si se encaminhassem, alimentando meu apetite com palavras ternas, guardando o que sentia, embrulhando meus versos em papéis que só aos bolos serviam.

Comments:
Olá Wagner!!! Obrigada pela visita!
Vc escrevia muito bem pela sua idade, adorei os versos!
Nunca pensou em escrever em letras de forma?
Gostei do blog.
Ótimo fds! Bjs
 
Pois se já existisse MSN e ou e-mail teria sido mais fácil, porém menos romantico.
Continue escrevendo para nós, teus leitores...
Beijos!
 
Lindo seu texto Wagner. Sou exigente com escrita. Uma letra legível é importante, concorda?
Liliane de Paula
 
pelo menos vc melhorou a letra né?
boa cronica, inventiva né guinho, q ninguem escreve ala camões na sexta serie kkk..
mas eu gostei. quando vc n tenta teorizar sobre o amor vc se sai bem. li até o fim, me prendeu.

bjs
 
Ao retirarmos as palavras do "cérebro" pensante _o coração, elas diminuem... perdem-se por entre as letras torcidas e garranchadas, sofre a sua essência, por quê?
 
ah, bonita figura... gostei do desenho, seria mágigo ser o nosso próprio desenhar no papel.
Um abraço e um sorriso!
 
... muito bom o texto... doce!
Obrigado!!!!
 
linda a forma, a letra...tudo...que bom você ter jogado esses "garranchos"no ar para compartilhar teu dom e a propósito sabes dádivas nunca devem ser sufocadas.. e amar seja como for é uma delas...como sugeriu Roberto Freire Ame e Dê Vexame...beijo
Carol Montone (te achei na página de minah mana)
 
Sempre achei que esse timidez dos meninos em fase escolar, narradas na literatura e nos filmes fosse exagero, mas vejo que ela acontece, mesmo, rs*.......

Boa semana para você, querido

beijocas

MM

ps: essa foto das mãos lembra a sala onde eu fazia terapia, kkkkkk, tempos bons!
 
Oh menino incompreendido :-) tadinho
 
Minha boca, por vezes, intensos versos belos - creio eu.
 
Ai que nao tem nada mais triste que o amor do timido :(
Eu costumo dizer que hoje é mais facil: a gente grava um CD e deixa a musica falar :)
E cartinhas, soh escrevo pras amigas nos aniversarios, no lugar de um cartao.
Adorei o texto e olha, desiste naum. Voce via encontrar a menina que naum vai sair mostrando pra todo mundo ;)
Bjs, adorei seu blog
E desculpa pela demora em responder :D
 
oi querido
um grande beijo!
delícia de texto...
:)
 
Ah, mas com esta tua alma de poeta não haveria como não ceder a teus encantos?!?
Humpf


Ah, e eu voltei!E agora pra ficar ;)
Beijão, tudo de bom!
 
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