17 fevereiro 2007

 

Pintura de Salvador Dali



COMO BONECOS DE AREIA


Eles se apregavam como cães. Logo no começo da noite. Eu via tudo. (Quando criança eu gostava de brechar o casal de vizinhos, recém-casados.) Primeiro, se beijavam desesperadamente. A saliva escorria pelo canto da boca de ambos. Pareciam brigar ao atirar-se um contra o outro. Vadios. Com extravagâncias. Depois, como se estivessem um assaltando o outro, começavam a despir-se, revezavam entre si, alternando a cada peça de roupa tirada. Ele partia pra cima dela com uma tara descomunal, animalesca. Ela só fechava os olhos e ia caindo lentamente no sofá, esperando - e era sempre assim - que ele colocasse logo o dedo, devagar. Iniciava-se, então, uma sessão de acanhados gemidos que invadia toda a casa. E eu ficava por ali mesmo, trepado no muro, espiando do lado de fora, espreitando por entre as estreitas brechas da janela entreaberta.

“Coloca agora”, ela pedia quase sussurrando. E ele nem pensava duas vezes. Abria-lhe as pernas e metia. Passava antes a língua. Os gemidos cresciam com força. Confesso que tinha hora que aquilo me dava medo. Às vezes eu pensava que ela estava passando mal, ia morrer, sei lá. Mas era bom assim mesmo vê-la sofrer com tanto prazer. Ela gostava da dor. Parecia. Pois ficava “vai, vai, vai...” Lembro das caretas que ele fazia naqueles momentos, eram - sobretudo - engraçadíssimas. Cômicas. Ele aparentava um peão de rodeio em cima de um touro leso! Desembestado. Logo suavam. Ficavam peguentos. Esfregavam-se suados. Ela tinha mania, enquanto ele a penetrava, de ficar chupando o dedo polegar dele. Nunca que eu entendesse aquilo. ( Parecia criança chupando pirulito.) Não tirava o dedo dele da boca.

Eu ficava acompanhando tudo. (Jantava logo cedo pra não perder a hora.) Eu achava o máximo o momento em que iam gozar. Ela torcia os beiços, esperneava. Ele dizia “vou gozar, vou gozar”. Dava-me vontade de rir. Se aquilo aparentava ser uma coisa tão boa, como o final acabava por ser tão agoniado? Gozavam. Os corpos pareciam se desmanchar como os bonecos de areia que eu fazia no pátio da escola e depois danava água em cima. Era incrível como depois daquilo os corpos perdiam aquela vibração de segundos antes. Ficavam estáticos. A placidez os ganhava. E eu voltava pra casa, alumbrado. Arrebatado. Queria fazer aquilo também. Esperava o outro dia, pensando em minha colega de classe que sentava logo à minha frente. Iria chamá-la pra brincar comigo, fazer bonecos de areia, com o intento de desmanchar-me em cima dela. Como um cão. Desembestado.

Comments:
e fez? hehehe
gostei daqui também
volte sempre :D
 
Obrigado pelo comentário,
seu blog é bem conceitual.
abs
 
Obrigado pelo comentário,
seu blog é bem conceitual.
abs
 
É assim que surgem as vontades, da observação...

"Como será gozar?", "Que gosto terá chupar um dedo alheio?...

...coisas assim.

Ah...

...se não fosse a contemplação ;)

 
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Ufa! Não sabia ter um amigo com uma escrita erótica tão forte e inebriante... Excelente!!!
Fiquei presa do início ao fim do texto e, confesso, se não estivesse tão pertubada emocionalmente, certamente teria sentido arrepios...

Adriana Amorim.
 
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