19 fevereiro 2007

 

ENCURRALADO


Percebo que os meus laços com a chuva são, sobretudo, misteriosos. Sim, percebo. Não sei ao certo que sentimentos me vêm quando ela explode, quando de repente parece amansar tudo; pois é neste momento, então, que me vem as mais estranhas sensações, as quais ainda não sei como chamá-las. Hoje à tarde mais uma vez choveu. Fiquei encurralado no meu quarto, em meio aos livros. A chuva desabava com peso. Fui logo invadido por pensamentos desordenados. Procurei-me nas nuvens, desobedecendo minha identidade, infligindo meus próprios mandamentos. “É do coração que vêm as más intenções” (Mt 15, 19). Escutar meu coração hoje seria suicídio. Desprezá-lo hoje foi a maneira mais pacífica de fazer de conta que a chuva não incomodava nem a mim e nem a ele. Agora anoitece. Aos poucos. Fico a olhar pela janela, enquanto a chuva se despede dando o último adeus durante o silêncio do início da noite. As sensações se vão. Aos poucos. Misteriosamente.

Comments:
Os sentimentos chegam e vão embora misteriosamente. Vai ver essa chuva é um simples pretexto para que eles se aflorem.

Beijos!
 
Já gostei de olhar chuvas na janela do apto. E de tomar banho de chuva na volta da academia.
Liliane de Paula
 
chuva... tempestade... nunca sei se mais forte lá fora ou aqui dentro...
como diz leminski, certezas o vento leva, só as dúvidas ficam em pé =)
 
Encantada com sua escrita fiquei eu, moço!! Amo a chuva.. as tempestades..rsrs... beijosss
 
Escolho este texto para comentar, pois foi postado no dia de meu aniversário. Sim. Choveu. E fez sol. E a água jogada com força nas janelas lavou um pouco as calçadas sujas. O vento que carregou as nuvens pesadas de água, arrepiou minha pele, friorenta. E agora, suas lembranças se mesclam às minhas, e tecemos o direito e o avesso, bordamos e enfeitamos o momento já passado, e que não passará mais. Ficará. Misteriosamente.
 
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