09 dezembro 2006

 

O AMOR BATE EM HORTTA


Acordei cedo hoje. Fiquei manhando na cama, pensando bobagens. Decidi ligar para o poeta Hortta. Havia lembrado Drummond: “o amor bate na aorta”. Liguei para dizer-lhe que “o amor pulou o muro”. Hortta me respondeu: “o amor é um porco espinho”. Emendei ainda com o maior poeta de Itabira: “o amor é bicho instruído”. Desliguei o telefone sem que Hortta sentisse o mau hálito matutino das palavras, a pretensão indistinta que havia por trás desses versos.

[Sim, tenho sérias dúvidas sobre o amor. Principalmente quando se trata da durabilidade dele. Às vezes prefiro deixar ele lá, no canto dele: “o amor, seja como for, é o amor”. Única certeza que tenho é que amor é coisa séria. Não me sinto (até porque não sou) velho nem cansado, mas sabe o que é você chegar numa fase em que são poucas as coisas sérias pra você. Me sinto assim. A culpa está aonde? Pouco interessa. “O amor bate na porta”.]

Liguei novamente e pouco tempo depois para Hortta:
- “O amor se estrepou”!
- (...) tal foi o silêncio de Hortta. Corte na ligação.
Repeti a ligação mais uma vez. Telefone desligado. Mudo. Hortta devorou-se, pensei. Talvez o amor tivesse batido em Hortta, com tabica de fogo, como se bate em lombo de moleque mal-ouvido. Mas dizem que amor não dói, “faz uma cócega”. O silêncio de Hortta diz muito, penso.

O certo é que o amor funde a carne. Perfura a pele, rasga o couro, atinge o osso. Podia ter dito isso ao Hortta. Calei. Deveria ter dito a ele o que o próprio Drummond sacramentou: “Essa ferida,(...)/, às vezes não sara nunca/às vezes sara amanhã.” Restou-me o silêncio do poeta Hortta, como consolo ao que amor não revela, nem tampouco faz vibrar frente a minha compreensão pouca sobre as coisas.


Comments:
Guinho,
Deus fez o amor para ter uma novela a assistir.

essa ficou boa
 
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