13 dezembro 2006

 

CHEGADA DE WITNER A UM LUGAR MUITO SEU


No fundo da sala havia apenas um fio de luz, vazando pela fresta. Os móveis empoeirados acusavam o abandono e desprezo que vitimavam o aposento. As paredes aparentavam aos poucos ir largando o reboco. Tijolo solto, cimento envelhecido. Passarela de lagartixas. O piso sempre áspero e sujo, completamente estambocado. O trinco velho da porta ainda mantinha seu chiado de rato. Só que agora um chiado de uma espécie de rato rouco, devido à ferrugem. Do lado de fora havia latidos de cachorro, galos cantando, barulho de menino; tudo isso rompendo o hímen do silêncio sepulcral da casa.

Aos poucos seu corpo foi se jogando no sofá velho e mofado. Deitando-se flácido. Cruzou o braço esquerdo sobre a testa. O suor descia-lhe a fronte. A vista baça perdia aos poucos o facho que entrecruzava a porta. Parecia bicho doente. Amuado. Entupido. A sonolência lhe tomara por completo. Tudo muito lento, mas a noite descia rápida. As coisas ainda do mesmo jeito, como se o mesmo filme se mantivesse em pausa a cada dia.

Abriu os olhos por volta das três da manhã. Dirigiu-se a um quarto. Deitou-se na cama, com os lábios babados, saliva seca no canto da boca. Se benzeu, já deitado. Por algum motivo olhou em direção ao vulto de um crucifixo de madeira, enganchado na parede. Fixou nele seu olhar, até que o sono o nocauteou por completo. A madrugada avançava, quase estourando o primeiro buraco de claridão no céu. Amanhecer frio. Orvalho desabrochante.

Comments:
seu melhor escrito. N adianta apelar, o velho Graça é o nosso mestre.vc escreve melhor assim do que no estiluzinho "andré de leones", pode crer.

e acho q se achou. faça prosa. dessa qualidade a cima.

gostei.
-Hortta
 
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