24 novembro 2006

 

DO VERBO AO CAOS


Estive há poucos dias em Recife. Cidade-cão. Bons ares poderia ter respirado por lá, não fosse a velha e já amiga Amigdalite que mais uma vez me arreou. Sofri como um jumento. Mas isso é só detalhe. Fui a propósito de um Seminário de Produção de Conhecimentos. Muito aprendizado. Sobretudo no que se refere ao cômico convívio humano. Quem já se desenganou com uma pessoa deve saber a que me refiro. Acho que isso é só mais um outro detalhe. Não comentemos essas banalidades que a gente sabe, sofre, disfarça, engole e nunca aprende.

Falemos da atmosfera lendária que é o Recife. Especificamente, quando cantado pelos poetas. Faço uma ressalva. Não acho que por serem “grandes” alguns poetas cantaram bem a cidade do Recife. É isso mesmo, sou avesso ao modo com que alguns poetas cantaram a terra natal de Nelson Rodrigues. Coisa muito pessoal. Pois, não consigo ver o Recife bem cantado por Bandeira, Cabral, ou mesmo Carlos Pena Filho. Na verdade, o Recife emperiquetado de poesia só me surge quando a música de Science emburaca em minhas retinas, mediante as próprias ruas, avenidas, e também o “caminho”, porque através dele é que “se ver o lugar melhor pra ficar”. Sim, aquele Recife que é do mangue, dos homens caranguejos, do caos, do barulho, dos becos, dos coletivos, das disparidades, da agitação, do suor do meio-dia etc.

O Recife por si só é poesia. Um travo. Ousadia cantá-lo. Mas já houve sim quem o cantasse cru, com a pereba bichada. Chico Espinhara, poeta que mora lá mesmo, ousou com precisão: “Recife, musa, maldição/cadela suja, traiçoeira/encantada cidade do cão”. Outro poeta, Erickson Luna, que mora lá e também vivo, fez aquele Recife conspirar em seu estado de transcedência, no poema Mariposa: “Pra eu poder/e só/andar nas ruas/fez-se em volta uma cidade”. Como é óbvio, é delicado pra mim aqui registrar todos os poetas que, a meu ver, cantaram tão bem o Recife quanto Chico Science. Mas eles existem. E ainda sim vivos. Sei apenas que é esse Recife que sinto. Esse que me é apresentado através dos poemas de alguns que ainda estão por trás das cortinas, e também das letras do Manguebeat de Chico, quando o caos se faz lama, e a lama se faz verbo.

Comments:
vc é mesmo um marginal. Bandeira, Cabral, Pena Filho. Nenhum soube cantar o Recife? Vai te lascar porra. João Cabral tem mais de 180 poemas sobre o Recife e região metropolitana. tu pq leu "evocação do recife" acha que conheçe e pode julgar Bandeira, Cabral é?

Tu só me angústia, com essa tua ideologia marginal. Espinhara, Luna e science, devem ter os seus valores, mas n é porque vc gosta de lama e caos q os seus poetas de merda são os melhores.

ademais sua croniqueta mostra um equivoco. o Recife de Cabral, Bandeira e Pena Filho tinha outro constexto. n é esse de hoje. e vc coloca q os poetas n souberam cantar o Recife de hoje. Só pode mesmo. nem estavam vivos e nem morando naquele entulho.
 
Te amo meu marginalzinho caseiro
 
Guinho, vc é meu Augusto dos Anjos Tomado banho e penteado.

;) tem que ser
 
Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?