26 outubro 2006

 
(do livro: Livro de Reminiscências)

A PROFESSORA SEVERINA ME ENSINANDO A ANDAR COM JESUS


“Certamente não foi o segundo livro a causa única do
meu infortúnio. Houve outras, sem dúvida.
Julgo, porém que o maior culpado foi ele.”

(Graciliano Ramos)


Devia estar mais ou menos na 5ª série. As aulas de Língua Portuguesa eram ministradas pela professora Severina. Uma cinquentona. Senhora de ombros largos, alta, meio gorda, pernas compridas, cabelos curtos, voz firme, cheirava a cigarro, tinha olhar de bicho e a boca de pouco riso. Todos sabiam o quanto ela ia além
da palavra “Grosseria”. Um dia ela arrastou um colega pela camisa até a coordenação, por ele ter dito que não via finalidade nenhuma em aprender “o substantivo e suas classificações”. Lembro que ela entrava na sala de aula e a aflição da turma parecia vir junto: os corações palpitavam mais forte, as pernas de uns tremiam, as mãos de outros suavam, e as bocas de todos emudeciam:
- Abram os cadernos, e sem fazer perguntas, copiem o que vou escrever no quadro!


Quase toda aula era assim. Mas o que mais me impressionava eram os trabalhos de impressões de leitura que ela nos incumbia. Certo dia, (pré-) escrevendo um desses trabalhos no quadro, em meio a angústia e o fungado tenso daquela turma, D. Severina solicitou a leitura do livro Andando com Jesus, do Domingos Pellegrini.
- Leiam: e ai daquele que não lê-lo. Quero ver quando eu perguntar sobre o livro quem é que vai, aqui na frente, querer ficar me enrolando, como pareia de cego. Ouviram! Leiam, estou mandando. Leiam pra ver se viram gente. Moleques relapsos!
Daquele dia em diante foi um tumulto, um alvoroço. Todos se rebolavam a fim de comprar o livro. Uns logo compraram, outros demoraram mais que uma semana. O prazo para ler o livro era de quinze dias. Acredito que demorei, ou melhor, meus pais demoraram onze dias para comprá-lo, pois diziam não ter dinheiro. Compreendia, afinal de contas, meus pais não podiam me comprar quase nada. Quem pagava meu colégio eram meus padrinhos. E daí uma pressão a mais para me preocupar com o azul da caneta em meu boletim.


Chegou o dia da apresentação oral das impressões de leitura de cada um. Uns chegavam na sala como se estivessem chegando a um velório, outros entravam na sala como bois em matadouro, e outros ainda, eram empurrados pelos próprios pais sala adentro. Tinha lido o livro de Pellegrini em quatro dias e - em relação a alguns colegas - estava um pouco seguro. Nesse dia, a sombra da professora no corredor da escola foi, sobretudo, trágica. Lembro que uma colega desatou em lágrimas sem ao menos a srª Severina ter avançado 3 metros da porta daquela sala de aula. A professora ao levantar a cabeça percebeu a menina chorando, e, muito fria e áspera, disparou:
- Deixe de frescura, levante, vá ao banheiro lavar a cara, e retorne rápido, que você será a primeira a iniciar nossos trabalhos. Já pro banheiro... Moleca mimada!


E assim, quando nossa colega retornou, começaram logo as exposições. “Fale, o que você entendeu sobre o livro”. Era o que a professora pedia. E a maioria começava: “Eu, eu, eu,...” Então a D. severina rebatia: “ ‘Eu, eu, eu,...’ nada! Vá sentar: Zero!” E largava a caneta vermelha da Bic na caderneta. Devo ser honesto e esclarecer que de 35 alunos, uns 5 haviam conseguido “falar sobre livro”. Chegou minha vez, estava roendo as unhas. Por ordem de chamada era um dos últimos, sempre foi assim. Com o tom de Hitler, a professora pediu que eu viesse à frente, como todos o faziam. E, lógico, o mesmo questionamento: “Fale o que você entendeu sobre o livro!” Confesso que a goela secou, o coração acelerou, a pernas bambearam; mas mesmo assim me expus:
- Professora, pouco se sabe sobre a infância e a adolescência de Jesus. Esse livro fala sobre um Jesus que não está na Bíblia, aquele que gera inúmeras especulações, onde a personagem... (fui interrompido)
- O quê?! Um Jesus que não está na Bíblia? Ora essa, que abobrinha... vá sentar moleque atrevido, gosta de aparecer, hein? Só que o que vai aparecer agora é uma nota vermelha em seu boletim, seu pirralho enxerido!


Fui sentar em meu canto, com o juízo pesado como um elefante. Queria “falar sobre o livro”... Iria falar sobre as aventuras, viagens, a amizade de Jesus com um sábio japonês. Puts... tive que engolir tudo isso. Ao final das exposições, ou melhor, das tentativas de exposições de cada um, D. Severina deu o seu tradicional sermão, retirando-se da sala com o ar de missão cumprida. A próxima aula seria de Religião - talvez hoje extinta das grades curriculares das escolas. A próxima professora seria a Irmã Maria José, iria falar sobre Jesus. Não o Jesus do Domingos Pellegrini, não o Jesus da professora de Português, mas sim um Jesus que eu procurava andar com Ele, embora às vezes tivesse a sensação de que Ele havia me abandonado. Sentia não andar com esse Jesus, mas com seu conseqüente abandono, quando lia algum livro e Ele não me acudia, na hora das avaliações da professora Severina.

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