29 agosto 2006

 

Joio e Trigo

Não sei se me enquadro ao que hoje chamam de “poeta”. De início, porque concebem que poeta não é chato, e depois porque hoje se considera poeta todo indivíduo que escreve pela mínima dor de cotovelo, ou simplesmente para exibir sua fuça após rabiscar qualquer coisa por desocupação, como se o ofício de escrever fosse o “ôba-ôba” da ociosidade mental. Percebo que o conceito de poeta (poeta mesmo) agoniza em pleno século XXI. Isso é uma preocupação que me castiga, e já há algum tempo, desde que, certo dia sendo apresentado como poeta a um irmão de uma colega minha, tive a impressão de ser visto como um ser de outro mundo, que vive na terra por acaso. E aí surge outro aspecto que me revolta: Acharem que o-ser- poeta vive com a cabeça nas nuvens e os pés quase no chão.

Chega a ser cômico isso. Mas fazer o quê, o poeta é responsável não só pelos demônios que cria, mas também pelos que convive. Portanto, são vários os desafios quando se cede os ombros às cruzes que a Literatura prega. Creio que o leitor já deve ter percebido que tento aqui “separar o joio do trigo”, separar pessoas comprometidas com o Fazer-Literatura, das que escrevem, por exemplo, impulsionados pelo desabafo da trágica fatalidade do abandono da (o) namorada(a) em pleno exercício sentimental e, ainda sim, querem a todo e qualquer custo tornarem-se poetas, grandes poetas, diga-se de passagem. Não que aqui eu esteja preocupado em pregar a lição Cabralina, de extinguir o sentimentalismo. Mas sim, expor a necessidade de empenho que se deve ter em mente quando se inventar, por algum motivo, de querer ser poeta, ou seja, o comprometimento mesmo com a arte literária, quando se propuserem querer aparecer como poeta. Comprometer-se como? A verdade é que não existem fórmulas mágicas nem fixas que lhes assegurem o sucesso na escrita a partir do compromisso, mas sim certos princípios que creio que não sejam de todo desprezíveis para se escrever algo, pelo menos, interessante. Cito pelo menos dois princípios, apenas dois dos vários.Particurlarmente nunca conheci grandes poetas que não fossem grandes leitores. Eis o primeiro princípio: a leitura exacerbada e compulsiva (não estou exortando a necessidade de influência), pois, sem dúvida, esta ampliará seu repertório de formas e expressões poéticas.Consequentemente: a busca de uma (ou outra?!) identidade de si, uma espécie de Alter ego que se aloja nas zonas mais desconhecidas da mente humana. Depois viriam, na verdade perguntas básicas que todo poeta ou escritor deve se fazer constantemente: para quê escrevo? Viveria sem escrever? Aonde quero chegar? Sou mesmo forçado a escrever?Certa vez, um dos maiores escritores pernambucanos, Osman Lins, falou em entrevista: “a Literatura, como outra qualquer atividade, tem também seus macacos”. Trata justamente de certos tipos que pegam carona na brecha que a poesia dá, ao elevar o homem a seu estado de transcendência e sublimação no ato da escrita, aproveitam-se, então, do espaço democrático que emana da própria poesia para a sua auto-afirmarção, e isso sem suor algum. É triste. Lamentável.De resto, creio que não devo me preocupar onde irei ou não me enquadrar. As coisas se encaixam por si mesmas, em seu tempo. Importante mesmo é que pelo menos ando com a sensação de estar me aproximando do Purgatório da Literatura, tipo de lugar onde nem todo deus ousa chegar. Estado de catarse. Inferno íntimo, onde ardo em meus poemas. Afinal, não quero recriminar poeta algum. Talvez seja inútil. Pois já bate à porta um tempo, nesse mundo de estupidez, em que a poesia, independente de como é escrita, acaba ainda sendo uma das melhores armas contra inércia das coisas. Que venha o julgamento final!

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